Ushuaia con las chicas buena onda

Placa situada no Porto de Ushuaia (via Instagram)

Placa situada no Porto de Ushuaia (via Instagram)

O voo que iria de Buenos Aires a Ushuaia estava lotado. A cena caótica de passageiros obstruindo o corredor da aeronave tentando acomodar suas bagagens de mão não era nenhuma novidade. Enquanto guardavam suas malinhas e sacolas com medidas e pesos acima do permitido, eu e o Élcio procurávamos por nossos assentos. Assim que os encontramos, vi que o maleiro acima das poltronas estava vazio. Sorrindo de alívio, suspendi minha mochila e a posicionei com muita facilidade no compartimento desocupado. Um segundo depois, uma moça se alça rapidamente diante de mim com o olhar fumegante. Ela já havia preparado aquele espaço para guardar seus pertences, e no instante em que abaixou para pegá-los, alberguei inocentemente minhas coisas. Quando percebi a gafe, desculpei-me mais do que imediatamente e retirei minha mochila, colocando-a debaixo da poltrona. A moça ficou enfurecida com minha falta de educação, mas juro que não foi de propósito. Depois desse pequeno incidente, apaguei. Os últimos dias tinham sido bastante corridos e eu estava exausto. Tanto que nem planejei um roteiro para Ushuaia. Embora minha colega Suzana Vacaro tivesse dado dicas preciosas sobre a cidade, sugeri ao Élcio que chegássemos lá e andássemos por onde o vento nos levasse. Ele não fez objeção.

No avião, eu estava sentado à janela, o Élcio na poltrona do meio e a moça ao corredor. Quando despertei, vi que ela e meu amigo conduziam uma conversa bastante afável. Ainda constrangido com a minha falta de noção, procurei não participar do papo, mas não demorou para que eles me incluíssem na prosa. Ela se chama Cintia e é de Ushuaia. Disse que estava de férias e se ofereceu para passear conosco pela capital da Província da Terra do Fogo. Agradecemos a gentileza e trocamos contatos. Ao final do voo, Cintia já havia esquecido a ira contra minha figura e se tornado uma grande chegada nossa.

Dica balao 2Não se vai a Ushuaia para andar a esmo, a não ser que o visitante escolha conhecer somente o centro da cidade, que é a parte menos atraente. Os principais pontos turísticos estão distantes, acessíveis por meio de carro ou de barco, além de que, muitas vezes, são necessárias longas caminhadas ecológicas. Há quem se dispõe a desembolsar quantias maiores e fazer os passeios de avioneta (avião de pequeno porte) ou de helicóptero. Todas essas excursões podem ser adquiridas nas agências de turismo espalhadas pela cidade. Para mais informações, acesse www.ushuaia.inf.br, ushuaiamovil.com.ar, www.tierradelfuego.org.ar, www.descubrepatagonia.com, www.patagoniaadvent.com.ar ou www.passeiosemushuaia.com.

PRIMEIRO DIA

Dublin Irish Pub

No aeroporto, despedimo-nos da mocinha e pegamos um táxi até o hotel, que se chama Villa Brescia e fica na Av. San Martín, 1.299. Mais central, impossível! Fizemos o check-in por volta das 21h30 e imediatamente fomos bater perna pela cidade do fim do mundo, vulgarmente lembrada como culo del mundo. Conforme sugestão da nossa nova colega argentina, seguimos para um pub chamado Dublin, localizado na 9 de Julio, 168, a poucos quarteirões de onde estávamos hospedados. É frequentado não apenas por jovens, mas por pessoas que gostam de vida noturna e, é claro, de boas cervejas.

Dublin, em Ushuaia

Dublin, em Ushuaia

Ushuaia é uma cidade que possui cerca de 60.000 habitantes. De todos esses, advinha quem estava no Dublin! A Cintia. Não havíamos combinado nada, mas mesmo assim nos encontramos ali. Ela estava com sua amiga Florencia e nos convidou para assentar. Assim o fizemos, passando o resto da noite naquele que é o bar mais badalado da cidade.

SEGUNDO DIA

Glaciar Martial, caminhada pela Av. Maipú, Viagro Bar-Resto

Acordamos, tomamos café e seguimos para nossa primeira visita em Ushuaia: a Glaciar Martial (Geleira Martial). Ficamos constrangidos em aceitar a generosa oferta da colega argentina de nos levar para passear – não queríamos incomodar –, então decidimos seguir por conta própria.

Antes de partir, precisávamos trocar nosso dinheiro. Em Belo Horizonte, não encontramos pesos argentinos, então resolvemos comprar a moeda em Ushuaia mesmo. Com as fortes restrições impostas pela inflexível Cristina Kirchner ao mercado de câmbio, a especulação sobre a moeda estrangeira na Argentina aumentou bastante. As taxas cambiais são as mais variadas, o que deixa o turista confuso e indeciso. Tentamos comprar pesos no hotel, mas achamos caro. Antes que saíssemos pela rua atrás de uma casa de câmbio, uma hóspede brasileira, muito seguramente, sugeriu que procurássemos pelos “cambistas de colete vermelho” que circulavam pelas calçadas da Av. San Martín com uma maquininha. Não demorou três minutos até encontrarmos um sujeito do tipo. Dirigi-me a ele e perguntei “Quanto é o peso?”. Ele franziu a sobrancelha ressabiado e disse que a casa de câmbio ficava a dois quarteirões dali. Como cambista, aquele homem daria um ótimo cobrador de vagas de estacionamento. Na verdade, esta era sua única função. Aquela brasileira desinformada me paga!

Av. San Martín

Av. San Martín

Dica balao 2Comprar peso estava complicado. Então fizemos o seguinte: trocamos o mínimo de dinheiro possível. Há quem leve dólar para a Argentina (como fizemos) e quem leve somente real. Lá, aceitam-se ambas as moedas na maioria dos estabelecimentos. Quando não utilizávamos o real, acionávamos o cartão de crédito, que, embora tenha incidido IOF sobre as operações, saiu mais em conta do que a comissão paga na compra do dólar aqui no Brasil somada à comissão que pagaríamos na conversão do dólar para o peso na Argentina. No mais, trocar real por peso lá é uma boa opção.

Decididos de não comprar pesos naquele momento, demos seguimento ao roteiro recém-planejado. Pegamos um táxi (que aceitava real) e rumamos para a Glaciar Martial.

A geleira fica a sete quilômetros da cidade. Situa-se a 1.050 metros acima do nível do mar e é a fonte de água potável mais importante de Ushuaia. Possui uma estação de esqui que funciona durante os meses de inverno, mas, como estávamos em abril, a pista encontrava-se seca. Havia gelo somente nas partes mais altas das montanhas.

Glaciar Martial

Glaciar Martial

Para chegar ao topo da pista de esqui, o visitante pode escolher entre pegar o teleférico ou subir caminhando por 1.200 metros. Infelizmente, o teleférico estava em manutenção, então tivemos que fortalecer as canelas na árdua subida, que só não foi mais penosa devido às belas paisagens que surgiam pelo caminho.

Baía de Ushuaia e Canal Beagle, vistos da Glaciar Martial

Baía de Ushuaia e Canal Beagle, vistos da Glaciar Martial

Pista de esqui da Glaciar Martial

Pista de esqui da Glaciar Martial

Pista de esqui da Glaciar Martial

Pista de esqui da Glaciar Martial

Ao final desse percurso, precisamente na estação do teleférico, começamos outra subida, dessa vez por trilhas um pouco acidentadas. O gelo surgia aos poucos e a caminhada ficava cada vez mais bonita.

Glaciar Martial

Glaciar Martial

Glaciar Martial

Glaciar Martial

Glaciar Martial

Glaciar Martial

Subimos, subimos – escorreguei bastante – e subimos. Havia vários grupos de pessoas tão leigas quanto nós, que faziam o trajeto por conta própria, sem guia local ou equipamento apropriado. E eu que achei que minhas botas Timberland seriam a sensação daquela caminhada glacial, porém fui o único que se esborrachou no gelo. Com o tombo, minha bunda ficou azul. Nem o frio conteve o hematoma.

Minhas inapropriadas botas Timberland, na Glaciar Martial (via Instagram)

Minhas inapropriadas botas Timberland, na Glaciar Martial (via Instagram)

Glaciar Martial

Glaciar Martial

Glaciar Martial

Glaciar Martial

Glaciar Martial (via Instagram)

Glaciar Martial (via Instagram)

Glaciar Martial

Glaciar Martial

Glaciar Martial

Glaciar Martial

Glaciar Martial

Glaciar Martial

Já havíamos caminhado uma hora e quinze minutos pela geleira. Após percorrer 2.200 metros, decidimos retornar. O vento e a neve estavam cada vez mais fortes e somente os mais destemidos seguiram adiante.

Glaciar Martial

Glaciar Martial

Glaciar Martial

Glaciar Martial

Descemos pelo mesmo caminho. Ironicamente, o tempo ia se abrindo, mas retomar a subida estava fora de cogitação. Encerramos o passeio no restaurante Refugio de Montaña, ao lado da base do teleférico, onde paramos para almoçar.

Paisagem vista na descida pela Glaciar Martial

Paisagem vista na descida pela Glaciar Martial

Restaurante Refugio de Montaña, na Glaciar Martial

Restaurante Refugio de Montaña, na Glaciar Martial

Entrada do Refugio de Montaña

Entrada do Refugio de Montaña

Depois da boia, fomos à charmosa e aconchegante casa de chá La Cabaña, que fica a poucos metros do restaurante.

Casa de chá La Cabaña

Casa de chá La Cabaña, na Glaciar Martial

Bosque ao redor da casa de chá La Cabaña, na Glaciar Martial

Bosque ao redor da casa de chá La Cabaña, na Glaciar Martial

Após uma breve circulada pelos bosques ao redor da casa, pegamos um táxi e retornamos à cidade. A taxista sugeriu uma parada num mirante da estrada Luis Fernando Martial, onde a vista é sensacional.

Ushuaia vista do mirante da estrada Luis Fernando Martial

Ushuaia vista do mirante da estrada Luis Fernando Martial

A taxista também se ofereceu para nos guiar em um dos passeios comumente feitos na Terra do Fogo, cobrando um valor um pouco mais baixo do que os das agências de turismo. A oferta da Cintia de nos levar para passear, por mais cordial que fosse, deixava-nos constrangido, pois, como eu já disse, não queríamos atrapalhar suas férias. Fechamos, portanto, o pacote com a motorista. Iríamos numa excursão privada aos lagos Fagnano e Escondido. Ela nos buscaria no hotel na manhã seguinte.

Por volta das 14h15, já no centro da cidade, esticamos em uma caminhada pela Av. Maipú, margeando a baía de Ushuaia.

Ushuaia vista da Av. Maipú

Ushuaia vista da Av. Maipú

R. Don Bosco, vista da Av. Maipú

R. Don Bosco, vista da Av. Maipú

Vimos o Saint Cristopher, um rebocador de salvamento construído nos Estados Unidos para atuar na Segunda Guerra Mundial. A embarcação foi tombada pelo patrimônio histórico e hoje encontra-se ancorada.

Rebocador Saint Cristopher, na baía de Ushuaia

Rebocador Saint Cristopher, ancorado na baía de Ushuaia

Passamos pelo porto de Ushuaia e, em seguida, pelo Museo del Fin del Mundo, que abriga uma bela e bem diversificada exposição sobre a Terra do Fogo. Preferimos não visitá-lo.

Montanhas de Ushuaia vistas da Av. Maipú

Montanhas de Ushuaia vistas da Av. Maipú

Montanhas de Ushuaia vistas da Av. Maipú

Montanhas de Ushuaia vistas da Av. Maipú

Mais adiante, finalizamos a caminhada no Museo Marítimo. Um pouco cansados devido às andanças intensas a às baixas temperaturas, também não entramos nesse museu e voltamos para o hotel.

Porto de Ushuaia, visto da R. Antártida Argentida

Porto de Ushuaia, visto da R. Antártida Argentida

Fachada do hotel Cap Polonio, na Av. San Martín

Fachada do hotel Cap Polonio, na Av. San Martín

Enquanto descansávamos, recebo uma mensagem da Cintia nos convidando para sair à noite. Fomos ao Viagro Bar-Resto, situado na Presidente J. A. Roca, 55. Mesmo pequena, Ushuaia surpreende com locais como esse. A comida é boa, os coquetéis são ótimos e os preços melhores ainda. Nossa colega argentina levou sua amiga Isabel, que rapidíssimo se tornou outra chegada nossa. Aquelas mocinhas são o que os argentinos chamam de chicas buena onda. Que astral bacana!

Isabel, Cintia, Élcio e eu, no Viagro Bar-Resto

Isabel, Cintia, Élcio e eu, no Viagro Bar-Resto

Entre uma conversa e outra, contamos a elas sobre a excursão que faríamos na manhã seguinte com a taxista. Instantaneamente, a Cintia arregalou os olhos dizendo que deveríamos tê-la chamado antes, pois já havia se oferecido para passear conosco. Mineiros que somos, esboçamos um sorriso amarelo, tombamos a cabeça para o lado, encolhemos os ombros e dissemos em um tom bastante tímido e constrangido que estávamos muitíssimo gratos com o convite, mas que não queríamos dar trabalho. Com os olhos mais arregalados ainda, ela riu alto e disse “Si alguien te ofrece algo, no dudes en aceptarlo” (Se alguém lhe oferecer algo, não hesite em aceitar). No final das contas, deixamos a jequice de lado e abraçamos a proposta. Partiríamos os quatro em um tour idêntico ao combinado com a taxista, para quem tivemos que ligar cancelando o passeio.

TERCEIRO DIA

Ruta Nacional n.º 3, Mirador Río Olivia, Mirador Paso Garibaldi, Tolhuin, Panaderia La Union, Lago Fagnano, Mirador Cerro Jeujepen, Laguna Margarita, Lago Escondido, Centro Invernal Villa las Cotorras, Dublin, Bodegón Fueguino

As chicas buena onda nos apanharam no hotel às 10h. Foram munidas de erva-mate, café solúvel, e garrafas térmicas abastecidas com muita água quente, além de todo o aparato necessário para se preparar e degustar o tradicional chimarrão. Pegamos a Ruta Nacional n.º 3 (Rota 3) e seguimos em direção aos lagos.

Na Ruta Nacional n.º 3 (Rota 3)

Na Ruta Nacional n.º 3 (Rota 3)

Fizemos uma rápida parada no Mirador Río Olivia, de onde a vista é espetacular.

Isabel, eu e Cintia, no Mirador Río Olivia

Isabel, eu e Cintia, no Mirador Río Olivia

Na Rota 3, não há paisagem que não seja magnífica, a não ser quando a neve ou a chuva atrapalham a visibilidade. Foi o que aconteceu quilômetros adiante, na primeira tentativa de ver o Lago Escondido do Mirador Paso Garibaldi. Tudo o que se via dali era uma sólida névoa branca.

Cintia, no Mirador Paso Garibaldi

Cintia, no Mirador Paso Garibaldi

Torcendo para que as condições climáticas melhorassem, combinamos de voltar ao mirante no final do dia, quando retornaríamos à cidade. Deixamos o local e seguimos pela Rota 3, margeando o imenso lago Fagnano até Tolhuin, um pequeno município localizado a 111 quilômetros de Ushuaia. Essa cidadezinha possui pouco mais de 2.700 habitantes e sua área urbana não oferece outra atração senão a Panaderia La Union, uma padaria aparentemente comum, mas bastante reconhecida pelos argentinos. Suas paredes são ornadas com fotos de celebridades que já passaram por ali, entre elas o ex-presidente Menem.

Panaderia La Union

Panaderia La Union, em Tolhuin

Não entendi o porquê de tanta badalação. Talvez a La Union venda um pão de receita guardada a sete chaves ou outra iguaria tradicional, mas isso nem as meninas souberam nos explicar. O fato é que o lugar é lendário e merece uma visita. Não comprei nada lá, mas suspirei de alívio por ter ido ao banheiro. A combinação chimarrão-café durante a viagem deixou minha bexiga alvoroçada.

A poucos minutos de Tolhuin, encontra-se a extremidade leste do Lago Fagnano, onde fizemos uma parada. Que lugar maravilhoso!

Extremidade leste do Lago Fagnano

Extremidade leste do Lago Fagnano

De frente para o lago, estão as Cabañas Khami, um complexo de chalés de cores chocantes bastante convidativos.

Cabañas Khami

Cabañas Khami

Cabañas Khami

Cabañas Khami

Mais adiante, existe uma espécie de camping muito pitoresco, com cabanas de madeira parecidas com ocas (talvez sejam mesmo ocas).

Camping próximo ao Lago Fagnano

Camping próximo ao Lago Fagnano

Dando seguimento ao passeio, retomamos a Rota 3, passando por outros belos lugares.

Paisagem vista da Rota 3

Paisagem vista da Rota 3

Paisagem vista da Rota 3

Paisagem vista da Rota 3

Não demorou e embrenhamos por uma estrada de terra que terminou no Mirador Cerro Jeujepen, outro mirante com vista magnífica.

Estrada que leva ao Mirador Cerro Jeujepen

Estrada que leva ao Mirador Cerro Jeujepen

Mirador Cerro Jeujepen

Mirador Cerro Jeujepen

Mirador Cerro Jeujepen

Mirador Cerro Jeujepen

Do Mirador Cerro Jeujepen, pegamos novamente a estrada e rumamos para a Laguna Margarita, um lugar tão belo quanto muitos outros que vimos naquele dia, mas de uma paz fora do comum. Sabe quando a taxista nos levaria ali? Nunca.

Laguna Margarita

Laguna Margarita

Já estávamos no caminho de volta a Ushuaia. O tempo havia melhorado e mais uma vez fizemos uma parada no Mirador Paso Garibaldi para contemplar o Lago Escondido. O panorama é de cair o queixo! Imagina aquilo tudo em dias de céu claro!

Lago Escondido, visto do Mirador Paso Garibaldi

Lago Escondido, visto do Mirador Paso Garibaldi

Tanta caminhada e belas paisagens resultaram numa fome descomunal. O Élcio ansiava por um churrasco de cordeiro, então as meninas decidiram fazer uma parada num dos lugares mais tradicionais para se comer um: o Centro Invernal Villa las Cotorras, que fica na Rota 3, a 25 quilômetros de Ushuaia. Em dias mais frios, o complexo oferece atrações como caminhadas pela neve com raquetes, aulas de esqui para iniciantes, passeios em snowmobile e em trenós puxados por huskies, entre outros. Confesso que deu pena ver aqueles cães presos aos seus canis, esperando pelo inverno rigoroso em que trabalhariam feito cachorros, literalmente.

Huskies puxadores de trenó, no Centro Invernal Villa las Cotorras

Huskies puxadores de trenó, no Centro Invernal Villa las Cotorras

Como não era temporada de muita neve, o centro invernal não estava oferecendo nenhuma dessas atrações. Apesar disso, para o desgosto do Élcio, eram 16h30 e a cozinheira resmungou que o cordeiro havia acabado, que seria servido novamente só no dia seguinte. Já o dono do estabelecimento afirmou que tinha cordeiro pronto, mas sua funcionária quase insolente decidiu que não serviria o bendito prato e ponto final. Eu nem queria mesmo.

Famintos, deixamos o complexo e seguimos para Ushuaia. Mal chegamos ao hotel e corremos à procura de um prato de comida. Próximo ao Villa Brescia, na Av. San Martín, 945, está o Chester, um sports bar onde devoramos sanduíches da melhor qualidade. Aliás, nem sei se estavam tão bons assim, mas a fome era avassaladora.

De estômagos forrados, retornamos ao hotel, descansamos um pouco e fomos tomar umas no Dublin. No entanto, havíamos esquecido que o pub não aceita cartão. O pouco dinheiro em espécie que havíamos no bolso foi suficiente para uns bons goles, mas não o bastante para esticar a noite ali. Então debandamos para o Bodegón Fueguino, um restaurante tipicamente argentino superbacana, situado na Av. San Martín, 859.

Restaurante Bodegón Fueguino

Restaurante Bodegón Fueguino

A casa que abriga o estabelecimento é muito bonita. Tanto a fachada quanto a decoração interna são um convite para quem passa pela avenida à procura de um bom lugar para comer. Todavia, os preços são altos, diferentemente da maioria dos restaurantes da cidade. Eu gostei do local, mas o Élcio detestou. Ficou insatisfeito mais pelo tratamento que recebeu do que com o prato, o qual achou mediano.

QUARTO DIA – Sexta-feira, 18/4/2014

Passeio à Isla de los Lobos, Tren del Fin del Mundo, Parque Nacional Tierra del Fuego (Senda Pampa Alta e castoreira), tour pela cidade, Museo Marítimo, Parrilla La Rueda, Casino Club

Dois dias antes, quando caminhávamos pela Av. Maipú, passamos na cabana da Adventure Explorer (www.patagoniaadvent.com.ar), empresa que oferece excursões de barco. Aproveitamos e garantimos nossos lugares no passeio até a Isla de los Lobos (Ilha dos Lobos Marinhos), agendado para esta sexta-feira. Preferíamos ter feito o passeio à Pinguinera, ilha habitada por pinguins. No entanto, essas simpáticas aves vivem lá somente de setembro a meados de abril, período em que se reproduzem. Não nos dariam, então, o ar de suas graças.

Embarcamos na excursão para a Isla de los Lobos às 10h, no porto de Ushuaia, poucos metros atrás da cabana onde adquirimos esse passeio. À medida em que o barco se afastava, a vista da cidade fica cada vez mais magnífica, mesmo com o tempo nublado.

Navegando próximo ao porto de Ushuaia, no passeio à Isla de los Lobos

Navegando pela baía de Ushuaia próximo ao porto, no passeio à Isla de los Lobos

Ushuaia vista da baía, no passeio à Isla de los Lobos

Ushuaia vista da baía, no passeio à Isla de los Lobos

Já no Canal Beagle, a embarcação se aproximou da Isla de Los Lobos, onde pudemos ver bem de perto a enorme comunidade de lobos marinhos.

Lobos marinhos e biguás-das-shetland, na Isla de Los Lobos

Lobos marinhos e biguás-das-shetland, na Isla de Los Lobos

Fazia um frio do capeta! Para piorar, começou uma chuva fina e cortante. Cada gota parecia um jato de areia em nossos rostos. Enquanto os turistas sofriam com as condições climáticas, as afáveis criaturas mantinham um ar blasé, como se estivessem espairecendo ao sol (que ainda não havia surgido).

Lobos marinhos, na Isla de Los Lobos

Lobos marinhos, na Isla de Los Lobos

Junto aos leões marinhos, havia uma enorme quantidade de biguás-das-shetland. Muita gente, inclusive eu, confundiu-as com pinguins, mas bastou o barco se aproximar da ilha para vermos que não têm nada a ver com eles. As biguás são vistas por diversos pontos ao longo do passeio.

Lobos marinhos e biguás-das-shetland, na Isla de Los Lobos

Lobos marinhos e biguás-das-shetland, na Isla de Los Lobos

Despedimo-nos dos lobos bonachões e seguimos navegando. Na ocasião, foi servido um lanche composto por café, chás e biscoitos doces variados conhecidos como galletitas. Essas bolachas sortidas foram a sensação daquela merenda! Para tornar o lanche ainda mais gostoso, o céu se abria e o sol começava a lançar seus raios aquecidos sobre o c* do mundo.

Lanche servido a bordo, com chás, café e galletitas (biscoitos)

Lanche servido a bordo, com chás, café e galletitas (biscoitos)

A navegação continuou até o Faro Les Éclaireurs (Farol os Iluminadores), em funcionamento desde 23 de dezembro de 1920.

Faro Les Éclaireurs

Faro Les Éclaireurs

Biguás-das-shetland, no Faro Les Éclaireurs

Biguás-das-shetland, no Faro Les Éclaireurs

Do farol, o barco retornou, passando pela Isla de los Pajaros (Ilha dos Pássaros) e fazendo uma parada na Isla Bridges, onde seguimos numa pequena caminhada guiada.

Isla de los Pajaros

Isla de los Pajaros

Canal Beagle

Canal Beagle

Isla Bridges

Isla Bridges

Isla Bridges

Isla Bridges

Na Isla Bridges, viveram os primeiros habitantes da Terra do Fogo, os Yámanas. Esses índios viviam nus – isso mesmo! –, suportando as mais baixas temperaturas graças à dieta altamente calórica à base de carne de lobo marinho e às fogueiras que acendiam. Como encontravam-se espalhados pela região, havia fogueiras por toda parte, inclusive nas canoas que a tribo usava para se locomover. Em 1520, a expedição de Fernão de Magalhães passou por lá e avistou esses vários pontos de fogo, dando origem ao nome Terra do Fogo.

Na parte mais alta da ilha, tem-se uma incrível vista de 360º do Canal Beagle e de seus arredores. Eram por volta das 12h10 e o céu já azul tornava os panoramas ainda mais belos.

Cordão montanhoso de Ushuaia e Canal Beagle, vistos da Isla Bridges

Cordão montanhoso de Ushuaia e Canal Beagle, vistos da Isla Bridges

Bolax, vegetação preservada na Isla Bridges

Bolax, vegetação preservada na Isla Bridges

Aeroporto Internacional de Ushuaia, visto da Isla Bridges

Aeroporto Internacional de Ushuaia, visto da Isla Bridges

Deixando a Isla Bridges

Deixando a Isla Bridges

A Isla Bridges foi a última atração do passeio marítimo. Enquanto navegávamos até o porto, foi servido outro lanche. Como me conter diante das galletitas?! Amo essa paixão dos argentinos por coisas açucaradas!

Segunda rodada de lanche no barco

Segunda rodada de lanche no barco

Quando adentramos a baía de Ushuaia, as águas ficaram muito agitadas. O barco parecia que ia tombar! Confesso que fiquei com o c* na mão, porque as ondas batiam forte contra a embarcação, que se movimentava para cima e para baixo de forma muito violenta. A coisa estava tão feia que um australiano chegou a se cortar. Nessas horas de sufoco, ajo como se estivesse num avião que atravessa uma zona de forte turbulência: procuro observar as aeromoças. Se elas estiverem tranquilas, é porque a situação está sob controle – ou são ótimas atrizes. Naquele barco, minhas atenções se voltaram para a tripulação. Como estavam fazendo piadas, fiquei menos aterrorizado.

Eram 13h20 e o belo cordão montanhosos de Ushuaia ia se aproximando. Que cidade linda!

Cordão montanhoso, visto do Canal Beagle

Cordão montanhoso, visto do Canal Beagle

Cordão montanhoso, visto da baía de Ushuaia

Cordão montanhoso, visto da baía de Ushuaia

Baía de Ushuaia

Baía de Ushuaia

Baía de Ushuaia

Baía de Ushuaia

Chegamos ao porto às 13h30, de onde caminhamos até o hotel. A Cíntia e a Isabel combinaram de nos pegar por volta das 14h para um passeio pelo Parque Nacional Tierra del Fuego.

O parque foi criado em 1960. Encontra-se a 12 quilômetros de Ushuaia, estendendo-se desde a Sierra de Injoo Goiyin, a norte do lago Fagnano, até a costa do Canal Beagle. É atração imprescindível para quem vai à Terra do Fogo!

No caminho, antes de entrar no parque, conhecemos a estação do Tren del Fin del Mundo, comboio que funcionou entre 1909 e 1952, originalmente construído para servir à prisão de Ushuaia, principalmente no transporte de lenha. Atualmente, opera como um trem turístico, com guias em espanhol, inglês e português. Preferimos não fazer esse passeio. Hoje, arrependo-me um pouco disso, pois parece ser bem interessante.

Tren del Fin del Mundo

Tren del Fin del Mundo

Cintia e Isabel, na estação do Tren del Fin del Mundo

Cintia e Isabel, na estação do Tren del Fin del Mundo

Eu e o Élcio, na estação do Tren del Fin del Mundo

Eu e o Élcio, na estação do Tren del Fin del Mundo

Após a visita à estação, retomamos a estrada nevada e chegamos ao parque. Deixamos o carro estacionado ao lado da Estação do Parque Nacional, ponto final do Trem del Fin del Mundo. De lá, seguimos caminhando rente aos trilhos.

Parque Nacional Tierra del Fuego

Parque Nacional Tierra del Fuego

Parque Nacional Tierra del Fuego

Parque Nacional Tierra del Fuego

Como pelejei para andar no gelo! A cada passo, eu desejava ter uma daquelas raquetes para pisar a neve que só se vê em desenhos animados.

Parque Nacional Tierra del Fuego

Parque Nacional Tierra del Fuego

Em um determinado momento, as meninas e o Élcio voltaram à quinta série e começaram uma guerra de bola de neve. Muito divertido, mas decidi ficar de fora brincadeira. Se andar já estava difícil, levar pancada gelada na cara ou esborrachar no chão (a Cintia quase caiu) era algo fora dos meus propósitos. Entrei em acordo com a criança que mora dentro de mim e preferimos assistir à batalha de longe.

Diversão no Parque Nacional Tierra del Fuego

Diversão no Parque Nacional Tierra del Fuego

Diversão no Parque Nacional Tierra del Fuego

Diversão no Parque Nacional Tierra del Fuego

Poucos metros adiante, entranhamos pelo bosque numa trilha chamada Senda Pampa Alta. Pensei “Meu Deus, aonde as chicas estão nos levando?!”.

Senda Pampa Alta

Senda Pampa Alta, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Senda Pampa Alta, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Senda Pampa Alta, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Da granja que sou, logo me vieram ideias do tipo “E se uma aranha gigantesca e cabeluda pular de uma árvore até meu pescoço? E se eu pisar numa cobra megavenenosa e ela me pungir com suas afiadas presas letais? E se uma formiga exótica das terras do fim do mundo me picar, provocando paralisia facial? Ursos são devoradores vorazes, não são?!” Mais do que depressa, perguntei às meninas sobre o risco de algum bicho encrespar conosco. Elas riram e disseram que ali quase não existem animais, especialmente essas perigosas criaturas da minha imaginação. E é verdade. De todas as trilhas em que estivemos durante nossa estadia em Ushuaia, devo ter visto no máximo dois mosquitos, daqueles bem desnutridos.

Naquele ponto da viagem, eu e o Élcio, sujeitos extremamente urbanos, pegamo-nos fazendo um passeio ecológico. E não tínhamos escapatória, pois a Terra do Fogo é sinônimo de ecoturismo. Diferentemente de nós, a Cintia e a Isabel são praticantes assíduas de trekking e o fazem com a maestria de um índio. Lideram pelas trilhas feito cães de caça, saltam troncos de árvores como gatos, caminham igual a lagartos sobre sendas escorregadias e íngremes e jamais se cansam. Já meu amigo e eu somos do tipo que opta por trilhas asfaltadas, de preferência as que levam aos bares. Porém, tivemos que abafar a síndrome da galinha de granja e encarar alguns desafios da natureza. Estava ótimo!

À medida em que embrenhávamos pela belíssima Senda Pampa Alta, a neve, que há pouco estava bem fraquinha, aumentava de volume. Nas clareiras, o chão parecia ter sido polvilhado por açúcar de confeiteiro. Era tudo muito bonito e muito sereno.

Neve começa a cair, na Senda Pampa Alta

Neve começa a cair, na Senda Pampa Alta

Não sentíamos frio. Evidentemente, estávamos bem agasalhados, mas acredito que se eu tirasse a jaqueta, não sofreria tanto assim. Acho mesmo é que estávamos anestesiados de tanto fascínio.

Senda Pampa Alta, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Senda Pampa Alta, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Senda Pampa Alta

Senda Pampa Alta

Caminhamos, caminhamos e caminhamos. Quando eu achava que todas as nossas emoções seriam banalizadas pelo excesso de encanto a que fomos expostos, eis que surge uma clareira completamente esbranquiçada e silenciosa. O céu, colorido (ou descolorido) de um branco sólido sem qualquer variação de tonalidade, parecia estar a poucos metros acima de nossas cabeças. Tive uma das sensações mais aconchegantes de minha vida, e posso dizer que aquele lugar, na forma como estava, era um dos pontos mais bonitos desse planeta. Uma pena as fotos não retratarem o local como ele realmente nos pareceu.

Clareira da Senda Pampa Alta, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Clareira da Senda Pampa Alta, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Clareira da Senda Pampa Alta, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Clareira da Senda Pampa Alta, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Pausa para descanso, na Senda Pampa Alta, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Pausa para descanso, na Senda Pampa Alta, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Isabel, na Senda Pampa Alta, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Senda Pampa Alta, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Senda Pampa Alta, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Senda Pampa Alta, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Senda Pampa Alta, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Senda Pampa Alta, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Senda Pampa Alta, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Senda Pampa Alta, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Andamos mais um pouco e surge outro lugar de extrema beleza. Era um mirante, porém estar nele era mais fascinante do que avistar qualquer paisagem.

Mirante da Senda Pampa Alta, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Mirante da Senda Pampa Alta, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Mirante da Senda Pampa Alta, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Mirante da Senda Pampa Alta, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Cintia me presenteia com um boneco de neve, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Cintia me presenteia com um boneco de neve, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Cintia me presenteia com um boneco de neve, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Cintia me presenteia com um boneco de neve, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Deixamos o mirante e começamos um trajeto de descida.

Senda Pampa Alta, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Senda Pampa Alta, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Para não fugir à regra, fomos agraciados com outra visão incrível. Sim, Deus existe! Deparamo-nos com uma barragem construída por castores. De fato, a castoreira, como é conhecida por lá, constituía uma paisagem meio caótica, mas de uma beleza inexplicável.

Castoreira, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Castoreira, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Castor mesmo, não vimos, mas somos eternamente gratos a eles por terem nos proporcionado algo tão formidável.

Castoreira, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Castoreira, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Dali, seguimos para o final da trilha. Pegamos a estrada e, debaixo de muita neve, fomos andando até o carro. Aquilo estava ótimo!

Parque Nacional Tierra del Fuego

Parque Nacional Tierra del Fuego

O gelo havia deixado muitas partes do parque inacessíveis aos automóveis, mesmo àqueles com rodas especiais. Não tínhamos outra opção senão ir embora.

Parque Nacional Tierra del Fuego

Parque Nacional Tierra del Fuego

Chovia no centro da cidade. Mesmo assim, nossas doces amigas argentinas estavam dispostas em nos levar em um tour pelos principais pontos da capital da Terra do Fogo. De bairro a bairro, passamos pelo antigo aeroporto, que hoje é sede do Aeroclub Ushuaia. Contamos a elas que somos servidores do Ministério Público, então fizeram questão de nos mostrar o edifício dessa instituição lá. Finalizando o roteiro, las chicas buena onda nos levaram ao Museo Marítimo, que, vencidos pelo cansaço, deixamos de visitar no segundo dia de viagem.

El Douglas DC-3, exposto no Aeroclub Ushuaia

El Douglas DC-3, exposto no Aeroclub Ushuaia

Barco exposto próximo ao Aeroclub Ushuaia

Barco exposto próximo ao Aeroclub Ushuaia

Edifício do Museo Marítimo

Edifício do Museo Marítimo

O museu estava lotado e a chuva não dava trégua, fazendo com que os visitantes se amontoassem na entrada coberta do edifício, numa fila superdesorganizada que levava à bilheteria. Em meio à balbúrdia de pessoas molhadas e ansiosas para ver a exposição, nossos ânimos iam se alterando. O cansaço gritava em nossas faces ruborizadas pelo frio. O efeito piscina, terminologia criada pela minha amiga Clarice, que define a sensação de rosto e olhos fumegantes por ter passado um dia ensolarado nadando em uma piscina cheia de cloro, fazia com que desejássemos mais uma cama do que um museu espetacular voltado à história da navegação pelas Terra do Fogo. Portanto, como na primeira tentativa de visitar o museu, abrimos mão da conhecê-lo.

Depois de um bom descanso, as meninas nos buscaram no hotel (como são queridas!) para irmos a um rodízio de carnes. O Élcio ainda estava aguado por não ter comido o tal cordeiro no Villa las Cotorras, então aquela seria a grande noite gastronômica do meu amigo. Fomos ao restaurante Parrilla La Rueda, onde as mocinhas comeram educadamente e nós nos satisfizemos como ogros. O estabelecimento fica na Av. San Martín, 193. Os preços estavam ótimos, e a comida também.

De lá, seguimos para o Casino Club, situado na Av. Maipú, 1.255. O lugar é fantástico! Por fora, o belo edifício possui a forma da cauda de uma baleia. No seu interior, os visitantes se deslumbram num ambiente magnífico de luzes e cores e de máquinas tilintando perdas e ganhos.

Casino Club

Casino Club

Embora eu tenha muita sorte com jogos de azar, a última coisa que eu queria fazer ali era jogar. Dispensei as incontáveis máquinas caça-níqueis, as roletas e as mesas de poker. Eram 23h45 e o que eu desejava mesmo eram bons drinques, servidos constantemente no cassino. Seria um ótimo lugar para se esticar a noite, não fosse a música ao vivo que começou a tocar poucos minutos após a nossa chegada. Cristo, que banda era aquela?! Que músicas estranhas! Seria um sertanejo argentino? Para potencializar o mal-estar provocado pela cafonice musical, o som estava altíssimo, prejudicando nossa interação com as chicas. Na verdade, só nós dois estávamos incomodados, pois, em um certo ponto da apresentação, o público se postou na frente do palco e começou a dançar alegremente.

Casino Club

Casino Club

Dica balao 2Tirando a performance ao vivo, o Casino Club é atração imprescindível para quem vai a Ushuaia. Seu edifício possui três níveis. No primeiro, encontram-se um bar/cafeteria e diversas máquinas de apostas eletrônicas. No nível intermediário, que tem vista para o Canal Beagle, existe um restaurante e uma infinidade de jogos de mesa, além do maldito palco de shows. Embora tivéssemos assistido a um concerto de qualidade duvidosa, no site do cassino há a informação de que artistas locais, nacionais e estrangeiros se apresentam ali. Por fim, o último nível dispõe de uma segunda área de máquinas eletrônicas e de outro bar. O cassino funciona todos os dias das 15h às 5h. A entrada é gratuita.

QUINTO DIA – Sábado, 19/4/2014

Parque Nacional Tierra del Fuego (mirante para Isla Redonda, Lago Roca, Mirador Laguna Verde, Senda Laguna Negra, final da Rota 3, Bahía Lapataia e Ensenada Zaratiegui), La Stancia

Durante toda nossa estadia em Ushuaia, a Cintia e a Isabel insistiam em nos levar à Laguna Esmeralda, que, segundo muitos, é um dos lugares mais fenomenais da Terra do Fogo. Contudo, a trilha de 3.560 metros que leva até a lagoa é feita de pura lama, principalmente se tiver chovido nos dias anteriores. Já bastante cansados das tantas sendas percorridas nos dias anteriores (Senhor, repreenda esses urbanóides mineiros!), polidamente declinamos o convite das chicas buena onda. Precisávamos, portanto, arrumar outro passeio. Na visita do dia anterior ao Parque Nacional Tierra del Fuego, muita coisa não foi vista, então as meninas nos propuseram de voltar lá.

Demos início à jornada ecológica pelo parque – estávamos começando a gostar disso – passando num mirante que oferece vista para a Isla Redonda.

Mirante com vista para a Isla Redonda, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Mirante com vista para a Isla Redonda, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Do mirante, retomamos a estrada e seguimos até o Lago Roca, onde, por volta das 11h10, partimos em uma caminhada pelos bosques de sua margem direita. Seguiríamos até bem perto da fronteira da Argentina com o Chile.

Lago Roca, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Lago Roca, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Trilha que ladeia o Lago Roca, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Trilha que ladeia o Lago Roca, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Pinguela na trilha do Lago Roca, no Parque Nacional Tierra del Fuego (via Instagram)

Pinguela na trilha do Lago Roca, no Parque Nacional Tierra del Fuego (via Instagram)

Outra vez, fomos contemplados com paisagens estonteantes pelo caminho. Já quase habituados às longas andanças mato adentro, não horrorizamos ao saber que o percurso até o ponto de retorno demoraria umas duas horas, portanto levaríamos outras duas para voltar.

Lago Roca, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Lago Roca, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Eu e o Élcio lembrávamos o tempo todo de nossas amigas aventureiras Elaine e Celma, que adoram uma embrenhada por bosques, florestas, selvas ou outro ambiente natural do tipo. Elas precisam conhecer a Terra do Fogo!

Lago Roca, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Lago Roca, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Lago Roca, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Lago Roca, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Lago Roca, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Lago Roca, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Como nem tudo é doce, após uma hora e meia de caminhada, meus joelhos começaram a me dizer que preciso ir menos a bares e mais a academias. Até sugeri que as chicas e o Élcio prosseguissem sem mim, mas preferiram retornar, preocupados com minha condição física. E assim fizemos, voltando ao ponto de partida da caminhada.

Do lago, pegamos o carro e rumamos para o Mirador Laguna Verde.

Mirador Laguna Verde

Mirador Laguna Verde, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Vista do Mirador Laguna Verde

Vista do Mirador Laguna Verde, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Após uma breve espiada, seguimos dirigindo até a Senda Laguna Negra, onde fizemos uma trilha de baixo grau de dificuldade (isso era fundamental!), com duração de 30 minutos (ida e volta).

Laguna Negra

Laguna Negra, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Senda Laguna Negra

Senda Laguna Negra, no Parque Nacional Tierra del Fuego

A cada metro percorrido, a dor nos joelhos era ofuscada pelo apetite que surgia impiedosamente. Estávamos há muito tempo sem comer até que, gloriosamente, a natureza nos ofertou o fabuloso pan de indio (pão de índio), um fungo que cresce na Patagônia, no sul do Chile e da Argentina e em algumas regiões da Austrália e da Nova Zelândia.

Pan de indio, encontrado na Senda Laguna Negra

Pan de indio, encontrado na Senda Laguna Negra

O fungo é insípido, mas sua textura é viciante! Ouvi dizer que, quando maduro, torna-se mais doce e suculento. Veganos e veganas iriam à loucura debaixo de uma árvore infectada por delícias como aquela. Na segunda mordida, eu que não sou gastrônomo, comecei a imaginar inúmeros usos sofisticados para o pan de indio. Ah, se meus amigos gourmets e chefs estivessem ali!…

Pan de indio, encontrado na Senda Laguna Negra

Pan de indio, encontrado na Senda Laguna Negra

Terminamos a caminhada pela Senda Laguna Negra e seguimos de carro pela Ruta Nacional n.º 3. Num determinado trecho da estrada, fomos gentilmente abordados por uma raposa-colorada, o segundo maior canídeo da América do Sul, menor apenas que o lobo-guará. Lá, essa adorável criatura é conhecida como zorro colorado. Lentamente, ela se aproximou do nosso carro com um olhar de pobre coitada, como se estivesse sem comer há semanas. Virei-me para ela e disse “Lindeza, e eu que só comi pan de indio! Dezfaz esse olhar misericordioso e parte pra caça!” Brincadeira! Eu jamais diria isso. A bichinha era tão fofa que dava vontade de levar para casa e enchê-la de comida. Até projetei a cena da minha mãe sendo presa no aeroporto de Ushuaia por tentar carregar uma raposinha dessa para o Brasil.

Raposa-colorada caminha pela Rota 3, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Raposa-colorada caminha pela Rota 3, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Chegamos ao final da Rota 3, ponto conhecido como Fin del Mundo, situado às margens da Bahía Lapataia. Ali, fizemos um tour pelas passarelas de madeira, que dão vistas para as mais belas paisagens.

Final da Rota 3 (Fin del Mundo)

Final da Rota 3 (Fin del Mundo)

Passarela do Fin del Mundo, na Bahía Lapataia

Passarela do Fin del Mundo, na Bahía Lapataia

Passarela do Fin del Mundo, na Bahía Lapataia

Passarela do Fin del Mundo, na Bahía Lapataia

Deixamos o Fin del Mundo e finalizamos o segundo dia pelo Parque Nacional Tierra del Fuego com uma parada na Ensenada Zaratiegui.

Ensenada Zaratiegui, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Ensenada Zaratiegui, no Parque Nacional Tierra del Fuego

Nossos passeios por Ushuiaia haviam chegado praticamente ao fim. Não foi possível ver tudo o que a Terra do Fogo tem a oferecer, mas estávamos extremamente satisfeitos com o que conhecemos e com a forma como conhecemos, sem esquecer da deliciosa companhia das afáveis amigas argentinas. Hoje, desejo voltar a Ushuaia mais para rever as chicas do que para fazer turismo. Elas deixaram uma marca muito especial.

Um bom churrasco não seria demais para a nossa última noite no fim do mundo. Após um breve descanso, juntamo-nos às meninas e fomos nos empanturrar no restaurante La Stancia, situado na Gobernador Godoy, 155.

Entre um prato e outro, fomos nos despedindo de Ushuaia e das chicas buena onda. Fizemos um convite para que elas passassem uma temporada conosco em Belo Horizonte, onde, além dos passeios por terras mineiras, dos pães de queijo, do Mercado Central e dos fins de noite na Cantina do Lucas, teriam à disposição inúmeras vendedoras de Natura, marca idolatrada pelas argentinas do sul. Aliás, caso você seja vendedora de Natura e esteja de viagem marcada para Ushuaia, não hesite em sobrecarregar suas malas de cremes, xampus e sabonetes dessa marca. Com as vendas, poderá pagar sua viagem e ainda trazer uns trocados para o Brasil. Obviamente, estou brincando, mesmo porque não quero que você seja abordada pela aduana argentina, mas a dica procede.

Fui e vou voltar - Alessandro Paiva

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Sobre Alessandro Paiva

A graphic designer who loves cocktail and travelling. Check my cocktail blog at pourmesamis.com, my travelling blog at fuievouvoltar.com and my graphic design portfolio at www.alessandropaiva.com.

  1. Fotos linda! Post muito legal! Super completo!

    • Alessandro Paiva

      Obrigado, Tati 🙂 Embora não tivéssemos planejado nossos passeios, deu para conhecer muita coisa. Abraço!

  2. Oi Alessandro! Tudo bem? Tenho férias entre 9 a 27 de julho e sempre tive vontade de ir ao Ushuaia. Como você já esteve lá (adorei o post!) pode me dizer se é muito tempo para ficar por lá? E, tomando por base Buenos Aires, Mendoza e Córdoba que já conheço, os preços por lá são similares? Se tiver mais dicas para me passar, agradeço.
    Grande abraço.
    Augusto

    • Alessandro Paiva

      Oi, Augusto! Antes de mais nada, adorei o post sobre funcionário público. Também sou um e compartilho das mesmas ideias 🙂 Quanto a Ushuaia, a cidade é bem pequena, e o que movimenta o turismo são os passeios para lagoas, estações de esqui, parques etc. Dentro da cidade mesmo não há muita coisa para se fazer, embora seja extremamente agradável. Acredito que cinco a seis dias são mais do que suficientes. Os preços são ótimos, mas, como você vai em alta temporada, não sei se estarão tão em conta. Acredito que não mude muito. Muita gente aproveita para esticar até El Calafate e ver a geleira Perito Moreno.

      Abraço e muito obrigado pelo prestígio ao blog 🙂

  3. Oi, Alessandro!
    Lindas fotos, texto gostoso, como sempre. Estou colocando link deste post lá no de TDP do meu blog, pode ser? Ainda não fui a Ushuaia – mas este post me deixou com vontade de ir conferir as cores do Outono! Obrigada por compartilhar

    • Alessandro Paiva

      Ah, Márcia! É sempre uma honra figurar no seu blog 🙂 É claro que pode linkar! Agradeço o apoio de sempre 🙂 E apresse-se em conhecer Ushuaia! Ao passar por lá, dê minhas saudações às queridíssimas amigas Cintia e Isabel 🙂

  4. Pingback: Torres del Paine: Dicas práticas – mulher casada viaja

  5. Pingback: El Calafate, aquela da geleira Perito Moreno – mulher casada viaja

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